Cerveja de trigo do Sul da Alemanha

Weissbier, Weißbier, Weizenbier, Hefe-Weissbier, Dunkelweizen, Weizenbock… Os nomes são longos e complicados mas não se engane: todos eles referem-se a uma das cervejas mais saborosas e versáteis do mundo: a cerveja de trigo do sul da Alemanha!

De Trigo sim, mas não 100%

As Weissbier tem pelo menos 50% de malte de trigo e o restante de malte de cevada. Utilizar somente o trigo é difícil pois ele tem muitas proteínas, que entopem os tanques de maceração. E em sua composição não há boa proporção de outras substâncias importantes para a cerveja.

Trigo: cereal exige mais do mestre cervejeiro

A escolha da cevada em detrimento de outros cereais é porque ela é rica em amido (açúcar + leveduras=álcool), possui grande teor de enzimas (amido +enzimas=açúcares menores) e tem uma casca dura, usada como elemento filtrante na tina de mostura.

O uso de malte de trigo com o de cevada reuniu então as vantagens de ambos. O trigo traz uma acidez refrescante, suas proteínas formam um magnifico colarinho branco e as leveduras Ale produzem aromas frutados e condimentados. Essas características tornam a Weissbier muito flexível em harmonizações. E são vários estilos diferentes!

Dicionário “trigo-cervejeiro”

Para entender melhor os rótulos, aqui vão algumas traduções dos termos mais comuns:

  • Weiss/Weisse ou Weiß/e = branco (a)
  • Weizen = trigo
  • Hefe = fermento, levedura
  • Mit Hefe = com levedura
  • Dunkel = escuro (a)
Alguns dos estilos de Weissbier
  • Weizenbock = estilo de Weizenbier mais alcoólica(entre 6,9 a 9,3%)
  • Kristallweizen/Kristallklar = versão filtrada de Weissbier
  • Trüb = turva
  • Naturtrüb = naturalmente turva (não filtrada)
  • Reinheit = Pureza
  • Gebot = Lei, regra, requisito
A Reinheitsgebot e a cerveja de trigo
Estado da Baviera em destaque

Weissbier – como a conhecemos hoje – tem sua origem no final do século XV na Baviera. Sua história foi cheia de percalços e por pouco ela não desapareceu por completo antes de chegar aos nossos (longos) copos.

A Lei da Pureza (Reinheitsgebot**) em 1516 determinou que os únicos ingredientes permitidos na cerveja eram cevada, lúpulo e água***. Além de controlar a qualidade da cerveja proibindo aditivos danosos à saúde e controlar os preços  – a lei queria assegurar mais trigo para a fabricação de pães. A Weissbier concorria com o brot (pão) pelo trigo enquanto muitos passavam fome.

Reinheitsgebot: 500 anos em 2016

Para nossa sorte, a nobreza bávara permitiu em 1548 a uma cervejaria – ligada à corte – fabricar cerveja de trigo . Outras poucas cervejarias (sempre licenciadas ou ligadas diretamente à nobreza) puderam produzir a Weizenbier até 1798, quando o monopólio “real” foi finalmente extinto. Uma dessas cervejarias é a célebre Hofbräuhaus de Munique.

Na próxima semana continuaremos tratando da Weissbier. Até o próximo gole!

* Em alemão a terminação dos adjetivos é complexa. A adição do “e” final  – como em Weiss(e) – não significa necessariamente que o gênero será feminino como em branco(a).
**A Reinheitsgebot é a lei mais conhecida regulamentando ingredientes da cerveja na Alemanha, mas não foi a primeira. Outras leis locais como uma de Munique em 1487 já determinavam que o único cereal a ser utilizado na cerveja era a cevada.
*** Ainda não se conhecia a presença e papel das leveduras na fermentação.

Cervejas trapistas e suas estórias!

No post anterior desvendamos a origem dos Trapistas. E descobrimos que são 11 abadias cujas cervejas trapistas têm o selo de ATP: 6 na Bélgica, 2 na Holanda, 1 na Áustria, 1 nos Estados Unidos e 1 na Itália.  Como algumas delas produzem mais de uma cerveja, segue a lista para você não se perder:

 Bélgica

  • Achel Blond (5%*), Achel Bruin (5%), Achel Blond (8%), Achel Bruin (8%), Achel Extra Bruin (9,5%) e Achel Extra Blond (9,5%)
  • Chimay Rouge (7%), Chimay Triple (8%), Chimay Bleue (9%), Chimay Dorée e Chimay Grande Réserve Vieillie en Barriques (10,5%).
  • Orval (6,2%) e Orval Vert
  • Rochefort 6 (7,5%), Rochefort 8 (9,2%) e Rochefort 10 (11,3%)
    As 6 belgas e a holandesa La Trappe
  • Westmalle Dubbel (7%), Westmalle Tripel (9,5%) e Extra
  • Westvleteren Blond (5,8%), Westvleteren 8 (8%) e Westvleteren 12 (10,2%)

 Holanda

    • Cervejas da Abadia de Koningshoeven, marca La Trappe**: Puur 4,7%, Witte 5,5%, Blond 6,5%, Dubbel 7% , Bockbier 7%, Isid’or 7,5%,Tripel 8%, Quadrupel 10% e Quadrupel Oak Aged 11%.
    • Zundert Trappist 8% (Tripel)
Zundert: a segunda holandesa trapista
  • EUA – Spencer: Trappist Ale 6,5%, Holiday Ale 9%, Imperial Stout 8,7% , IPA 7,2%, Feierabendbier 4,7% , Festive Lager 7,5%
  • Itália – Tre Fontane Tripel 8,5%,
  • Austria – Engelszell: Nivard 5,5%, Benno 6,9% e Gregorius 10,5%

Uma curiosidade é que são 11 marcas de cervejas trapistas com o logo, mas são 12 as cervejas trapistas: a Mont des Cats (7,6%) – da abadia de mesmo nome na França – também é trapista. Só que ela é fabricada pela Chimay. Por não ser produzida na própria abadia, a Mont des Cats não é um AUTHENTIC TRAPPIST PRODUCT.

Ora, labora et…desce mais uma Tripel?

Nada disso! Beber uma cerveja muito alcoólica como Dubbel ou Tripel não faz parte do cotidiano regrado um monge trapista. Muitas das abadias têm na verdade uma cerveja mais leve que é consumida por eles. Uma delas se tornou muito desejada pelos aficionados: a Orval Vert ou Petite Orval (pequena Orval).

Orval Vert: só no bar próximo da abadia

Ela tem apenas 3,5% de álcool e nem é preciso ser devoto de São Bento para degustá-la:a taverna L’Ange Gardien próxima à abadia serve a Orval Vert aos reles mortais direto da torneira! Combine com um queijo trapista do local e…agradeça pela graça concedida(!)

A Westmalle Extra(4,8%) também mais leve. Produzida poucas vezes ao ano, é destinada somente aos monges e seus convidados. E recentemente a Chimay passou a comercializar sua Chimay Dorée (4,8%) que antes era reservada aos monges, seus hospedes e staff.

Até o próximo gole!

*Medida de álcool por volume (no caso = 5ml de álcool por 100ml da cerveja)
**A La Trappe e outras trapistas lançam muitas versões comemorativas e/ou limitadas. A listagem aqui apresentada traz apenas as cervejas produzidas regularmente.

Cervejas trapistas e sua origem

Mesmo quem as conhece pode pensar que trata-se de um estilo de cervejas, porém as cervejas trapistas são aquelas feitas pelos monges trapistas (como os da Abadia Orval, da foto em destaque acima) e pertencem a mais de um estilo.

Mas por quê o nome trapista?

A história começa no século XI, quando foi fundada a primeira Abadia da Ordem Cisterciense em 1098 na Borgonha. Ela surgiu como um ramificação dos beneditinos e coube a São Bernardo (1090-1153) seu desenvolvimento pelo continente europeu.

Rotulo antigo da holandesa La Trappe

Trapista vem de Notre Dame de La Trappe, abadia erguida em 1140 na Normandia, que tornou-se cisterciense em 1147. La Trappe era o nome da propriedade do Conde Rotrou III, cuja filha morrera em um naufrágio em 1120. Em sua homenagem, ele fez no local um oratório e depois construiu a abadia.

A “Reforma” Trapista e expansão

Em 1662,o clérigo Armand-Jean de Rancé (1626-1700) instituiu na abadia uma releitura (mais rígida) das regras religiosas. Dessa “reforma” originou-se a chamada Ordem Cisterciense da Estrita Observância (ou Ordem Trapista).

A doutrina trapista se propagou pela Europa devido à perseguição  aos religiosos durante a Revolução Francesa. Os monges em fuga difundiram sua crença em diversos outros países, garantindo a continuidade da Ordem.

Ora et labora

São Bento: os trapistas o seguem

Os trapistas seguem rigorosamente as regras estabelecidas por São Bento no século VI, que enfatizam a oração e o trabalho manual. Por isso os monges produzem e comercializam diferentes produtos, como cervejas e queijos.

A fabricação de bebidas alcoólicas pelos religiosos vem desde a Idade Média. Assim, uma cerveja de abadia pode não ser trapista. As trapistas destacaram-se mais por sua qualidade, complexidade, “mística” e incrível sabor!

O selo de Produto Trapista Autêntico

O nome trapista é uma denominação de origem, o que significa que todos os itens feitos pelos 160 monastérios trapistas no mundo são ditos trapistas. Entre esses produtos estão as cervejas, queijos, chocolates, biscoitos, pães, licores e muitos outros, inclusive não alimentícios. 

Já o selo AUTHENTIC TRAPPIST PRODUCT  é um certificado que só pode ser dado aos produtos dos monastérios membros da Associação Internacional Trapista e precisam atender a determinadas regras na produção e comercialização. O logo ATP garante que:

  • Os produtos são fabricados no próprio monastério ou nas proximidades;
  • A comunidade monástica está envolvida com a gestão e com os meios de produção. E toda a produção está claramente subordinada ao monastério beneficiário e segue uma cultura empresarial que reflete o modo de vida monástico.
  • Os lucros são destinados em sua maior parte ao atendimento das necessidades da comunidade(monástica) e a obras sociais*

Quais são as cervejas trapistas?

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As onze cervejas trapistas com logo ATP

Atualmente apenas 11 monastérios têm o selo da ATP em suas cervejas trapistas. Para saber quais são, clique aqui.
Na próxima semana tem mais sobre as cervejas trapistas:os estilos, curiosidades, fatos e mitos. E lembre-se: cerveja é cultura!

To beer continued…

Comunidade aqui parece significar a comunidade monastica. Recomendo a leitura das regras no próprio site